Adriano Dias e o Circo ilusório: o fato sobre os policiais ante a política dos direitos humanos

POLICIAIS VITIMAS DE BANDIDOS. Em 2014, mais e 500 policiais foram mortos no Brasil em confronto com bandidos. Do total, 120 no Rio de Janeiro. Disponível em: http://rvchudo.blogspot.com.br/2015/07/policiais-vitimas-de-bandidos.html

Confesso que, ao bater o olho no texto de Adriano Dias no site da ComCausa (ver aqui: https://www.comcausa.net/single-post/Entrevista-Adriano-Dias-para-FMZ), tive muita dificuldade para entender onde ele queria chegar com tudo aquilo. O texto, com o título “ Palhaços de um Circo Trágico”, se inicia com uma foto de Jair Messias Bolsonaro, faz uma crítica aos tais “palhaços” (que ele nunca diz quem são, só deixa subentendido na figura evanescente de Bolsonaro e adjacentes), traça a linha histórica do termo “bandido bom é bandido morto”, e, no final das contas, entre muitos erros de português, acaba por fazer uma defesa da ação dos membros das entidades de Direitos Humanos, opondo-a à “falsa defesa do policial” que, insinua ele, é feita pelos tais “palhaços”. Nessa mistura sem substância, cheia de insinuações e sem nenhum nome, o que entrevi foi um grande equívoco baseado (espero eu!) na mera implicância que a figura do conservador brasileiro provoca, naturalmente, em membros políticos desse tipo de organização.

O que Adriano Dias, participante da política dos direitos humanos desde o ano de 2000 [1], não compreende, é que toda a revolta vinda dos opositores das políticas de Direitos Humanos se deve às ações e pretensões absurdas desta, todas calcadas numa agenda ideológica que, no final das contas, chega de fora para infectar o país. São organizações de Direitos Humanos como o Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu (da qual Adriano fez parte em 2000), que incentivam políticas de descriminalização de drogas e desarmamento (civil e policial) [2] e cujo assessor e representante, Fransérgio Goulart, diz que “a polícia é racista” e “favorável à política do confronto” [3](como se houvesse outra), que são repudiadas massivamente pelos defensores dos policiais.

Fica evidente, aqui, que o problema com relação à polícia está muito além de mortes que, dadas as proporções da criminalidade no Estado, naturalmente acontecerão (e também muito além do que o próprio Adriano Dias conseguiria perceber): trata-se de uma campanha explícita de difamação e condenação da Polícia Militar. Com a maior cara-de-pau, Marcelo Freixo, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ, grita contra os “abusos” que a polícia comete, e redige o prólogo do livro “Bala Perdida”, da Boitempo, cuja capa estampa duas botas pretas cheias de sangue, alardeando os problemas e os males da violência policial [4] que, para eles, mais parece um genocídio à lá Fidel Castro; em nível nacional, Darci Frigo, presidente do Conselho Nacional dos Direitos Humanos se reúne na Comissão de Direitos Humanos para, junto com a deputada Maria do Rosário (e outros), discutir o grave (ó!) problema da violência policial em manifestações [5]; ao passo que as grandes redes de televisão ampliam o debate sobre a desmilitarização da PM, qualificando seu trabalho como violento, e promovem uma verdadeira desmoralização dos policiais como um todo. Contra isso, meu amigo, quinze minutos falando num microfone em meio a uma manifestação de solidariedade aos policiais [6] que são, estes sim, verdadeiras vítimas da bandidagem, não vão adiantar de nada – e muito menos irão conseguir limpar a imagem de uma política de Direitos Humanos que, se vendo preso a elas, Adriano se obriga a defender.

 

Não sabemos, portanto, que “galera dos Direitos Humanos” é essa que ele cita. Mas, desfeita a imagem aparentemente bela que Adriano tenta fazer da política de Direitos Humanos, enxergamos a verdadeira tensão do problema policial do RJ: a imagem do policial é degradada, a insegurança se alastra, a criminalidade parece irrefreável, e então surge uma reação, geralmente extrapolada, por parte de quem não aguenta mais assistir tamanho caos. Essa mesma tensão se repete na pequena história do Scuderie Detetive Le Cocq, organização que

surge tão-somente como reação ao assassinato de um detetive da polícia, que Adriano, copiando descaradamente da Wikipédia, cita para condenar aqueles que repetem o discurso do “bandido bom é bandido morto”. Mas o fato é que os 16 assassinatos diários no estado do Rio de Janeiro tornam o número de vítimas desse esquadrão uma piada [7]– e é isso que a política dos direitos humanos encobre para, no final, atacar a integridade do Policial Militar ou do político empático que, vendo-se sozinhos no centro de inúmeras acusações, acabam por extrapolar aqui e ali em discursos que, no final das contas, são um nada ante a realidade do crime organizado no Estado e na Baixada.

Como se não bastasse a tentativa ridícula de taxar como “palhaços” aqueles que defendem a severidade do combate à criminalidade (seguindo a tradição da política Nacional dos direitos humanos, como citada acima), a proposta de Adriano parece inverter os papéis e evidencia o verdadeiro palhaço: para ele, os policiais, ao invés de combater o crime organizado que, segundo ele mesmo, está armado “até os dentes” com granadas e equipamentos de calibre 50, devem se concentrar em reclamar proteção do Estado, e, no final das contas, o direito de serem a “última opção” para o combate às “articulações do crime”. Ora, mas essa é precisamente a função da Polícia: servir ao Estado para proteger os cidadãos e combater a criminalidade. Que Adriano quer, afinal? Condições de trabalho dignas e bom salário para os policiais? Claro, isso todos querem. Mas, em essência, o que ele está propondo como medida efetiva e real? É óbvio que as propostas contidas nesse texto aparentemente inofensivo escondem uma política de refreamento da ação policial; e isso pode, até certo ponto, encher os olhos daqueles que sofrem na pele os problemas de se expor à criminalidade todo santo dia.

Mas, vejamos o que diz o artigo 26 do Estatuto da PMERJ:

“Art. 26 – São manifestações essenciais do valor policial-militar:

I – o patriotismo, traduzido pela vontade inabalável de cumprir o dever policial-militar e pelo solene juramento de fidelidade Pátria e integral devotamento à manutenção da ordem pública, até com o sacrifício da própria vida;” [8]

Mediante juramento nesses termos, o Policial Militar do Rio de Janeiro deixa claro que não é um covarde, pronto a se esconder nas barras-da-saia do Estado, mas, pelo contrário, se dedica a servi-lo com honra e fervor. Eu não sei exatamente qual o efeito positivo que esse refreamento da ação policial que Adriano deixa subentendido poderia gerar, salvo algumas vidas que seriam compensadas com o seu dobro em assassinatos, mas sei que ele, tentando indicar um culpado político para o problema, não da nome aos bois e acaba por jogar sua argumentação no vazio. O fato é: os verdadeiros culpados pelos assassinatos de policiais são os criminosos. E como se pretende combater os criminosos refreando a ação policial? A sugestão de Adriano parece uma piada de péssimo gosto – mas é apenas a política dos Direitos Humanos falando por si, em sua eterna tragédia circense.

Diante desse problema (e não pretendo fazer parte dessa tragédia que Adriano aponta com uma péssima alegoria), pretendo aqui arrolar alguns fatos sobre os verdadeiros problemas da Polícia Militar no estado.

Antes de tudo, é preciso entender o seguinte: o dinheiro é apenas uma parte pequena do problema. Ninguém em sã consciência arriscará sua vida e a daqueles que ama por um salário no fim do mês, seja ele qual for. Se a PM ainda resiste e atua, é pela força do juramento militar e da honra com que decidem servir à sociedade (e incrivelmente é isso que pretende ser

minado pelas políticas de “direitos humanos”, principalmente a desmilitarização da PM). O brasileiro, preso no que chamamos de “dinheirismo”, acredita que tudo se resolve e tudo gira em torno do dinheiro; mas, no final das contas, o que o Policial Militar precisa é de um motivo maior para enfrentar o poder demoníaco do tráfico de drogas.

Diferente do militar do exército, que é constantemente relembrado do seu dever para com o país Brasil, é alimentado com sua história, e cuja força é redobrada cada vez que ratificam “Brasil acima de tudo”, o Policial Militar não conhece suas origens, não sabe de onde vem esse nobre dever, não se vê inserido numa tradição com um significado maior que uma mera profissão. O Policial não conhece Miguel Nunes Vidigal, o notório major de Milícias da primeira Divisão Militar da Guarda Real da Polícia da Corte (predecessora da PMERJ); não conhece as ações dessa predecessora na Independência do pais, a responsabilidade da polícia militar na permanência de Dom Pedro no Brasil; não conhece a história dos “Treme-Terra”, assim conhecidos os guardiões da baixada fluminense e Niterói pela sua coragem e força. Os policiais militares olham para os dois lados e se vêem numa farda, sem o menor sentido para estarem arriscando sua vida senão um salário (ainda assim baixo) no final do mês, insuficiente para sustentar sua família, e, acima de tudo, que poderia ser conseguido por outros meios – e aí os casos de corrupção dentro da polícia são constantes. Nem mesmo as cores e os símbolos da Polícia Militar os lembra de algo, senão do dever enfadonho de arriscarem suas vidas, a coisa mais sagrada para o ser humano, por algo tão mísero – ou, talvez, do ódio instintivo ao marginal que pode facilmente desaparecer de uma hora para a outra, dependendo das circunstâncias.

Alguns poderiam argumentar que as forças policiais ao redor do mundo não funcionam da mesma forma. É verdade, mas que país do mundo carrega nos seus ombros um fardo de 60 mil homicídios por ano [9]? Que país está infestado de facções criminosas com aparato militar e bélico quase tão grande quanto o das forças do Estado? Que país tem de lidar com uma força criminosa com essa organização e esse tamanho? Apenas os países em guerra. [10]

O fato é que o fim da chacina e do terror provocados pelas facções criminosas no Estado só ocorrerá quando houver, por um lado, uma polícia verdadeiramente militarizada e pronta para arriscar tudo, em nome do seu país, pelo dever mais honrado, parte da aspiração mais alta do ser humano – o de proteger as pessoas e livra-las do jugo do terror –, e, do outro, um chefe de Estado capaz de dar a esses sujeitos o devido reconhecimento, que Adriano Dias mentirosamente alega já estar sendo entregue pelos membros dos centros de Direitos Humanos, quando o que acontece é precisamente o contrário. Mas o que ele deseja é uma horda de policiais covardes e castrados, ajoelhando e implorando proteção do Estado, quando nem mesmo os policiais querem isso.

No final das contas, o que “não adianta nada” é falar mal daqueles que, embora extrapolem aqui e ali, desejam punição severa aos criminosos e uma elevação na vida dos policiais, em todos os sentidos – econômico, moral, social e psicológico –, inclusive o ilustre deputado Jair Messias Bolsonaro, que ilustra o “palhaço” no circo de Adriano. O cidadão que se importa de fato com a vida do policial não deseja que ele fuja do seu compromisso, mas que seja defendido, com hombridade, por alguém que consiga, no mínimo, escrever um bom e honesto texto, não essa confusão de palavras e insinuações caricatas que, no final das contas, esconde tudo que há de pior em termos de medida política.

 

REFERÊNCIAS

[1] Moção Nº 1297/2012, EMENTA: DE LOUVOR E APLAUSOS AO SR. ADRIANO DIAS, de Robson Leite. Disponível em: http://alerjln1.alerj.rj.gov.br/scpro1115.nsf/ce9c3f177ad4aec7832566ec0018d824/860e419a2e313e2083257a5c00609c3a?OpenDocument

[2] https://www.facebook.com/cdhni/photos/a.799125620121683.1073741828.799052053462373/1604606706240233/?type=3&theater

[3] RIOON WATCH – Moradores e Ativistas da Baixada Comentam Audiência Sobre Segurança Pública. Disponível em: http://rioonwatch.org.br/?p=27386

[4] Marcelo Freixo: Polícia e direitos humanos. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2015/07/15/marcelo-freixo-policia-e-direitos-humanos/

[5] Comissão de Direitos Humanos debate violência policial em manifestações. Disponível em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/DIREITOS-HUMANOS/536465-COMISSAO-DE-DIREITOS-HUMANOS-DEBATE-VIOLENCIA-POLICIAL-EM-MANIFESTACOES.html

[6] Direitos humanos no ato pelos policiais mortos na Baixado. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lCsEUZWlfFQ&t=802s

[7] Número de assassinatos sobe 30% na Baixada Fluminense, aponta ISP. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2016/08/numero-de-assassinatos-sobe-30-na-baixada-fluminense-aponta-isp.html

[8] Disponível em: https://pmerj.rj.gov.br/estatuto-do-policiais-militares/

[9] Mata da Violência 2016 mostra recorde de homicídios no Brasil. Disponível em: http://www.valor.com.br/brasil/4493134/brasil-lidera-em-numero-de-homicidios-no-mundo-diz-atlas-da-violencia

[10] Número de homicídios no Brasil é maior do que o de países em guerra. Disponível: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/10/numero-de-homicidios-no-brasil-e-maior-do-que-o-de-paises-em-guerra.html

 

João Pedro Garcia é aluno do Curso Online de Filosofia do professor Olavo de Carvalho.

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